Arco e flecha indígena: da utopia ao fazimento

As ideias tem um enorme poder. Disso emana o valor da utopia. Depois de concebe-la, o desafio é transformar a utopia em fazimento. Relato aqui os avanços de uma utopia amazônica.

O Brasil é a sétima economia e a quinta maior população do mundo. Em Londres, ficamos em 22º lugar no ranking de medalhas olímpicas. Dentre as muitas modalidades olímpicas uma merece especial atenção: arco e flecha. Nenhuma outra modalidade se relaciona de forma tão clara e óbvia com a história do Brasil e da Amazônia. As populações indígenas habitavam todo o território nacional à época da chegada dos europeus. Foram dizimadas por guerras, escravidão e doenças. Temos uma dívida histórica a ser resgatada.

O Brasil possui hoje mais de 300 etnias e uma população de cerca de 900 mil indígenas. Existem ainda mais de 50 grupos isolados, ainda não contatados, no interior da Amazônia. De maneira geral, a situação das populações indígenas do Brasil é muito ruim, infelizmente. Os elevados índices de suicídio de diversas etnias atestam de forma eloquente uma trágica realidade. A autoestima das populações indígenas é baixa, fruto da pobreza, preconceito e exclusão social. Os índices de alcoolismo são elevadíssimos. O acesso à saúde e educação está entre os piores do país. Predomina a desesperança.

Em 2013 demos vários passos importantes. Primeiro, formatamos o Projeto de Arquearia Indígena e Ribeirinha do Amazonas. Segundo, criamos a Escola de Arquearia Floresta Flecha, vinculada à Federação Amazonense de Tiro com Arco. Terceiro, formatamos uma parceria envolvendo a Secretaria Estadual de Juventude, Esportes e Lazer e a Confederação, a Secretaria Estadual dos Povos Indígenas e a Coordenação dos Povos Indígenas do Amazonas.

Ao longo de 2013 realizamos 18 seletivas de arco e flecha indígena em comunidades e aldeias ribeirinhas do Rio Negro, que contaram com aproximadamente 80 participantes. Ao final desse processo, foram selecionados 12 jovens, que receberam treinamento especializado fornecido pelo Centro de Treinamento de Alto Rendimento do Amazonas, da SEJEL. Foram realizados 3 períodos de treinamentos intensivos na Vila Olímpica, com duração média de uma semana cada, nos quais fizemos as transições do arco nativo para o arco escola e depois para o arco olímpico.

Em paralelo à formação de atletas de alto rendimento, apoiamos a formação de jovens para a participação no Campeonato Escolar Brasileiro. Na competição estadual, os nossos arqueiros conquistaram as medalhas de ouro, prata e bronze. No ranking nacional, computada a pontuação de todos os atletas do Brasil, conquistamos a medalha de ouro na modalidade infantil masculino!

O sucesso desse projeto não é apenas um caminho a mais para a necessária conquista de medalhas olímpicas. Será uma inestimável contribuição para resgatar uma dívida histórica que temos com as populações indígenas. Terá um enorme impacto positivo para a autoestima e o futuro das populações indígenas de todo o Brasil.

Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas, dia 09 de janeiro de 2014.