Desmatamento na Avenida do Turismo, em Manaus-AM.

Desmatamento em condomínios de Manaus

Manaus vive um momento de grande crescimento de condomínios, especialmente na  Ponta Negra e Tarumã. Ocorre que essas são regiões de grande importância ecológica para o futuro da cidade. O desmatamento, nessas áreas, tem consequências sérias no  clima da capital, na qualidade das praias e no futuro de espécies ameaçadas de extinção, como o sauim-de-coleira.

A prática atual é, antes de iniciar a construção de casas, fazer a derrubada total da vegetação em todo o terreno. Depois entra o trator de esteira e elimina todo e qualquer vestígio da floresta nativa. O resultado é trágico: toda a biodiversidade desaparece e os igarapés são entupidos pela terra levada pelas enxurradas.

Duas medidas simples poderiam reduzir os impactos ambientais do desmatamento urbano. A primeira é que deveríamos fazer uma campanha educativa com os condomínios e proprietários de lotes com florestas. Ao invés de desmatar 100% dos terrenos, algumas árvores nativas como açaizeiros, buritis e ingás poderiam ser poupadas. Melhor ainda, poderíamos preservar toda a vegetação de uma parte do terreno. Isso não apenas beneficiaria a fauna, que se alimenta dessas espécies, como reduziria custos de paisagismo, traria o conforto das sombras das árvores e a beleza de nossas espécies nativas. Um quintal com árvores é um luxo que custa menos do que a atual prática de substituição total da vegetação nativa. Todos sairiam ganhando: a natureza e os proprietários.

A segunda é utilizar a prática de plantar capim ou grama após o desmatamento da parte do terreno a ser construída.  Ao invés de esperar o término da obra para plantar capim ou grama, isso poderia ser feito imediatamente após a limpeza do terreno na área a ser edificada, antes mesmo do início da obra. O que teria enorme impacto na redução da erosão, evitando o entupimento dos igarapés, o acúmulo de barro nas ruas, avenidas e nas praias da cidade – incluindo a Ponta Negra.

Existem soluções simples e práticas para o crescimento da cidade. Cuidar do que ainda resta de floresta nativa, em Manaus, é uma tarefa urgente.

É hora da sociedade civil se mobilizar para fortalecer a consciência ambiental . Talvez seja uma boa ocasião para um movimento de proteção às ultimas florestas da região urbana. Será ainda possível resgatar o sonho de reconstruir os banhos de igarapé como parte essencial da história, cultura e qualidade de vida em Manaus?

É a ocasião dos governos estadual e municipal apertarem as regras do licenciamento ambiental de condomínios e de outros empreendimentos urbanos. Provavelmente uma ação conjunta dos órgãos ambientais possa inibir de forma eficiente os crimes ambientais que, hoje, observamos. Possivelmente possamos pensar em algo mais ambicioso: criar incentivos econômicos para proprietários individuais e condomínios. Reduzir o IPTU para aqueles que mantêm florestas acima do que é exigido por lei?

É o momento das construtoras, arquitetos e engenheiros mudarem as práticas atuais de projetos nas áreas urbanas. Porventura seja um bom momento para os sindicatos e conselhos profissionais debaterem soluções técnicas e criarem um novo código de postura e ética profissional. Divulgar novas práticas de arquitetura e engenharia? Premiar profissionais e empresas vanguardistas?

É a oportunidade dos proprietários valorizarem a riqueza desperdiçada ao “limparem” seus terrenos para construir. Acaso isso possa ser estimulado pelas  emissoras de televisão, rádio e jornais da cidade, mostrando soluções e bons exemplos. Os programas podem incluir uma seção sobre “boas práticas” para o crescimento de Manaus. Como crescer e, ao mesmo tempo, conservar a qualidade ambiental?

É possível pensar também em recuperar as árvores e florestas em áreas onde o desmatamento foi feito. Já existem técnicas disponíveis para a restauração ecológica de áreas degradadas. Isso é uma boa oportunidade para jovens universitários, que em breve entrarão no mercado de trabalho.

Ainda há tempo. A cidade, os sauins-de-coleira, nossos filhos e netos agradecerão. Melhor: os proprietários economizarão dinheiro e ganharão o frescor da sombra das árvores. Vale a pena mudar!

Artigo publicado, no Jornal Diário do Amazonas, em 25 de abril de 2013.

O ambientalismo e os temas sociais

Durante muito tempo, o ambientalismo tinha como foco apenas a conservação da natureza. Isso mudou, felizmente. O ambientalismo moderno incorporou os temas sociais nas suas estratégias de ação.

A história do ambientalismo é antiga, podendo ser identificado no pensamento dos sábios gregos ou nas realizações de civilizações indígenas como os Maias, na América Central. Vamos focar aqui na história mais recente, a partir da segunda metade do século XX.

Diante da destruição avassaladora dos solos, rios, oceanos e florestas, cresceu o entendimento de que isso poderia ser uma barreira para o desenvolvimento da humanidade. Esse juízo, fortemente embasado pela ciência, alimentou um movimento ambientalista, que resultou em manifestações populares e movimentos políticos. A pauta principal era conservar os ecossistemas, partindo do princípio de que a destruição ambiental compromete o acesso à água potável, à conservação dos solos para a agricultura e à produção de peixe em rios,  aos lagos e mares, etc.

Durante muito tempo, o pensamento ambientalista foi marcado por um posicionamento radical e distante da realidade. A ideia era de que a proteção da natureza deveria vir antes e acima dos temas sociais. A crítica ao “mito da natureza intocada”, tão bem formulada por Antonio Carlos Diegues, apontou para os equívocos de uma visão tipicamente urbana e problemas majoritariamente rurais. Foi neste contexto que floresceu um novo ambientalismo, que incorpora a temática social na sua estratégia de ação. Assim que o conceito de “preservação” –  proteger a natureza intocada pelas pessoas – foi sendo substituído pelo conceito de “conservação” –  proteger a natureza com o seu manejo pelas sociedades humanas.

Do ponto de vista prático, os preservacionistas defendiam áreas intocadas – como parques nacionais – como a única forma de proteger a natureza. Os conservacionistas, por sua vez, defendem que o manejo dos recursos naturais representa um caminho mais eficiente para conciliar a proteção da natureza com a melhoria da qualidade de vida. Esse pensamento evoluiu para o conceito de desenvolvimento sustentável, em que os objetivos relacionados à conservação ambiental são colocados em pé de igualdade com o desenvolvimento econômico e os temas sociais como, por exemplo, saúde, educação, etc.

O ambientalismo moderno não se contrapõe à temática social. Ao contrário. O ambientalismo moderno vê a redução da pobreza e a melhoria da qualidade de vida como componentes essenciais de uma visão inteligente de proteção ambiental. Como disse Nelson Mandela: “a pobreza é a maior inimiga da conservação da natureza”.

Se não há mais lugar para o “velho ambientalismo”, também não há lugar para o “velho desenvolvimentismo”, marcado pela poluição de igarapés, destruição de nascentes, erosão dos solos, desertificação, etc. A convergência que devemos buscar tem alguns grandes desafios: como melhorar a qualidade de vida e, ao mesmo tempo, proteger a natureza? Como crescer a economia, gerando empregos sem destruir a base de sustentação da vida?

O embate político e partidário, às vezes, alimenta a ideia de antagonismo entre proteção ambiental e desenvolvimento econômico. É um equívoco. Nos últimos anos, a produção agropecuária, na Amazônia, cresceu rapidamente enquanto o desmatamento caiu de forma drástica. A explicação é simples: foram feitos investimentos em tecnologias modernas que aumentaram a produtividade. Aliás, essa é parte da solução para a sustentabilidade: precisamos melhorar a qualidade de projetos com tecnologias mais modernas.

Felizmente o ambientalismo moderno está cada dia mais forte na Amazônia e no Amazonas. O Amazonas pode e deve se orgulhar de ter boa parte de sua natureza bem conservada. Nosso desafio é valorizar economicamente isso. As hidroelétricas brasileiras, por exemplo, se beneficiam das florestas da Amazônia (fonte de chuva), mas não pagam por isso. Precisamos fazer com que a valorização dos serviços ambientais nos ajude a financiar melhorias na saúde, educação e geração de renda. Não é tarefa fácil, mas temos que perseverar. O futuro de todos está em jogo.

Artigo publicado, no Jornal Diário do Amazonas, em 04 de abril de 2013.

Essa é a escola municipal São Sebastião, construída com recursos do Bolsa Floresta

Uma jornada ao Rio Gregório

O rio Gregório é uma das regiões mais isoladas do Amazonas. Partindo de Manaus, subindo o Juruá até a Boca do rio Gregório, são 15 dias. Nesse rio, o transporte é difícil. No inverno, com ele cheio, a viagem é perigosa, com tocos encravados, apontados como flechas para os cascos dos barcos que passam. No verão, com esse rio seco, a situação fica muito mais difícil: só mesmo de rabetinha.

Fizemos a viagem desde o Acre, em março de 2013, no meio do inverno amazônico. Partindo de Cruzeiro do Sul, foram 170 quilômetros até a ponte do rio Gregório na esburacada BR-364. De lá, na comunidade São Vicente, descemos de barco até a fronteira do Amazonas. Para chegar até a primeira comunidade do Amazonas, na Reseva Extrativista (Resex) rio Gregório, Lorena, com três famílias, consumiu três horas de lancha rápida (motor 150 hp). Nesse período, são 19 dias de viagem (dia e noite) desde a Boca do Juruá até a última comunidade do Amazonas, chamada Moxila.

O que chama mais atenção no Gregório é o isolamento. A viagem pelo meio de transporte mais comum, a canoa com motor a rabeta ou rabetão, da sede municipal de Eirunepé até a comunidade de Lorena, demora quatro dias, por barco regional. Entre curvas, praias e tocos de pau, cada viagem é uma epopeia.

O motivo da viagem foi ver o que acontece nas comunidades mais remotas que participam do Programa Bolsa Floresta. A viagem emocionou a todos. Das 15 comunidades, oito não possuem escolas; cinco com escolas extremamente precárias (com goteira e sem piso) e duas apresentavam escolas boas (sem goteira, com paredes, cadeiras e quarto para professor). Os investimentos do Bolsa Floresta Social iniciaram a transformação dessa realidade. Já foram construídas três escolas e reformadas mais três. Em 2013, serão construídas mais cinco e reformadas mais duas. Ao fim de 2013, teremos 11 escolas boas.

O desafio de melhorar a educação é grande. Nossa parceira, com a Prefeitura Municipal de Eirunepé, tem apresentado dificuldade em manter os professores no rio Gregório. Tem muito pium e carapanã. A situação precária das escolas era um fator adicional para desmotivá-los. Agora estamos pactuando uma nova fase com a Prefeitura Municipal. Esperamos aumentar radicalmente o número de dias de aula efetivamente ministrada nas escolas do Gregório. Cada escola conta com um quarto e banheiro para os professores. Um conforto básico, nada de mais. Propusemos ainda que a prefeitura doasse um “enxoval”.

Ainda existem outros desafios. Talvez o mais importante deles seja vencer o isolamento das comunidades do Gregório. Em caso de doenças, as famílias ficam sem notícias por semanas, às vezes meses. Até pouco tempo, a alternativa era enviar uma mensagem por uma rádio comercial ou esperar uma carta trazida pelo regatão – barco-supermercado-comércio – que passa uma vez a cada mês ou a cada dois meses. Essa realidade começou a mudar com a instalação de cinco rádios amadores no Gregório e um na sede municipal. Por meio desses rádios, as pessoas mandam notícias e ainda conseguem intermediar ligações telefônicas com celulares em Manaus ou outras cidades. A comunicação, que parece algo tão óbvio e trivial no mundo urbano, é uma revolução para aqueles que vivem nos beiradões do Gregório.

Restam ainda outros desafios, especialmente no campo da geração de renda. O Gregório foi um dos maiores produtores de borracha do Amazonas. O potencial ainda existe, pois as seringueiras ainda estão lá. Investimos em mais de 130 kits de produção de borracha (faca, balde, tigela, facão e bota). O investimento da FAS foi complementado por investimentos da Secretaria de Produção Rural do Amazonas (Sepror), juntamente com a parceria do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS). A borracha está com o quilo próximo a R$ 5,00 e um produtor produz, em média, 500 quilos em uma safra de seis meses. Para um trabalho de meio período é uma fonte razoável de renda, que se soma à copaíba e outros produtos extrativistas. Complementada com a produção de farinha e peixe, a produção extrativista vem renascendo e promovendo a melhoria da qualidade de vida.

A mensagem principal de tudo isso é que é possível melhorar a qualidade de vida das populações ribeirinhas. Valorizar as riquezas da floresta. O saber ribeirinho é uma das chaves para superar o isolamento em locais como o rio Gregório.

Artigo publicado, no Jornal Diário do Amazonas, no dia 18 de abril de 2013.