Uma jornada ao Rio Gregório

O rio Gregório é uma das regiões mais isoladas do Amazonas. Partindo de Manaus, subindo o Juruá até a Boca do rio Gregório, são 15 dias. Nesse rio, o transporte é difícil. No inverno, com ele cheio, a viagem é perigosa, com tocos encravados, apontados como flechas para os cascos dos barcos que passam. No verão, com esse rio seco, a situação fica muito mais difícil: só mesmo de rabetinha.

Fizemos a viagem desde o Acre, em março de 2013, no meio do inverno amazônico. Partindo de Cruzeiro do Sul, foram 170 quilômetros até a ponte do rio Gregório na esburacada BR-364. De lá, na comunidade São Vicente, descemos de barco até a fronteira do Amazonas. Para chegar até a primeira comunidade do Amazonas, na Reseva Extrativista (Resex) rio Gregório, Lorena, com três famílias, consumiu três horas de lancha rápida (motor 150 hp). Nesse período, são 19 dias de viagem (dia e noite) desde a Boca do Juruá até a última comunidade do Amazonas, chamada Moxila.

O que chama mais atenção no Gregório é o isolamento. A viagem pelo meio de transporte mais comum, a canoa com motor a rabeta ou rabetão, da sede municipal de Eirunepé até a comunidade de Lorena, demora quatro dias, por barco regional. Entre curvas, praias e tocos de pau, cada viagem é uma epopeia.

O motivo da viagem foi ver o que acontece nas comunidades mais remotas que participam do Programa Bolsa Floresta. A viagem emocionou a todos. Das 15 comunidades, oito não possuem escolas; cinco com escolas extremamente precárias (com goteira e sem piso) e duas apresentavam escolas boas (sem goteira, com paredes, cadeiras e quarto para professor). Os investimentos do Bolsa Floresta Social iniciaram a transformação dessa realidade. Já foram construídas três escolas e reformadas mais três. Em 2013, serão construídas mais cinco e reformadas mais duas. Ao fim de 2013, teremos 11 escolas boas.

O desafio de melhorar a educação é grande. Nossa parceira, com a Prefeitura Municipal de Eirunepé, tem apresentado dificuldade em manter os professores no rio Gregório. Tem muito pium e carapanã. A situação precária das escolas era um fator adicional para desmotivá-los. Agora estamos pactuando uma nova fase com a Prefeitura Municipal. Esperamos aumentar radicalmente o número de dias de aula efetivamente ministrada nas escolas do Gregório. Cada escola conta com um quarto e banheiro para os professores. Um conforto básico, nada de mais. Propusemos ainda que a prefeitura doasse um “enxoval”.

Ainda existem outros desafios. Talvez o mais importante deles seja vencer o isolamento das comunidades do Gregório. Em caso de doenças, as famílias ficam sem notícias por semanas, às vezes meses. Até pouco tempo, a alternativa era enviar uma mensagem por uma rádio comercial ou esperar uma carta trazida pelo regatão – barco-supermercado-comércio – que passa uma vez a cada mês ou a cada dois meses. Essa realidade começou a mudar com a instalação de cinco rádios amadores no Gregório e um na sede municipal. Por meio desses rádios, as pessoas mandam notícias e ainda conseguem intermediar ligações telefônicas com celulares em Manaus ou outras cidades. A comunicação, que parece algo tão óbvio e trivial no mundo urbano, é uma revolução para aqueles que vivem nos beiradões do Gregório.

Restam ainda outros desafios, especialmente no campo da geração de renda. O Gregório foi um dos maiores produtores de borracha do Amazonas. O potencial ainda existe, pois as seringueiras ainda estão lá. Investimos em mais de 130 kits de produção de borracha (faca, balde, tigela, facão e bota). O investimento da FAS foi complementado por investimentos da Secretaria de Produção Rural do Amazonas (Sepror), juntamente com a parceria do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS). A borracha está com o quilo próximo a R$ 5,00 e um produtor produz, em média, 500 quilos em uma safra de seis meses. Para um trabalho de meio período é uma fonte razoável de renda, que se soma à copaíba e outros produtos extrativistas. Complementada com a produção de farinha e peixe, a produção extrativista vem renascendo e promovendo a melhoria da qualidade de vida.

A mensagem principal de tudo isso é que é possível melhorar a qualidade de vida das populações ribeirinhas. Valorizar as riquezas da floresta. O saber ribeirinho é uma das chaves para superar o isolamento em locais como o rio Gregório.

Artigo publicado, no Jornal Diário do Amazonas, no dia 18 de abril de 2013.

Vamos debater este assunto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s