O ambientalismo e os temas sociais

Durante muito tempo, o ambientalismo tinha como foco apenas a conservação da natureza. Isso mudou, felizmente. O ambientalismo moderno incorporou os temas sociais nas suas estratégias de ação.

A história do ambientalismo é antiga, podendo ser identificado no pensamento dos sábios gregos ou nas realizações de civilizações indígenas como os Maias, na América Central. Vamos focar aqui na história mais recente, a partir da segunda metade do século XX.

Diante da destruição avassaladora dos solos, rios, oceanos e florestas, cresceu o entendimento de que isso poderia ser uma barreira para o desenvolvimento da humanidade. Esse juízo, fortemente embasado pela ciência, alimentou um movimento ambientalista, que resultou em manifestações populares e movimentos políticos. A pauta principal era conservar os ecossistemas, partindo do princípio de que a destruição ambiental compromete o acesso à água potável, à conservação dos solos para a agricultura e à produção de peixe em rios,  aos lagos e mares, etc.

Durante muito tempo, o pensamento ambientalista foi marcado por um posicionamento radical e distante da realidade. A ideia era de que a proteção da natureza deveria vir antes e acima dos temas sociais. A crítica ao “mito da natureza intocada”, tão bem formulada por Antonio Carlos Diegues, apontou para os equívocos de uma visão tipicamente urbana e problemas majoritariamente rurais. Foi neste contexto que floresceu um novo ambientalismo, que incorpora a temática social na sua estratégia de ação. Assim que o conceito de “preservação” –  proteger a natureza intocada pelas pessoas – foi sendo substituído pelo conceito de “conservação” –  proteger a natureza com o seu manejo pelas sociedades humanas.

Do ponto de vista prático, os preservacionistas defendiam áreas intocadas – como parques nacionais – como a única forma de proteger a natureza. Os conservacionistas, por sua vez, defendem que o manejo dos recursos naturais representa um caminho mais eficiente para conciliar a proteção da natureza com a melhoria da qualidade de vida. Esse pensamento evoluiu para o conceito de desenvolvimento sustentável, em que os objetivos relacionados à conservação ambiental são colocados em pé de igualdade com o desenvolvimento econômico e os temas sociais como, por exemplo, saúde, educação, etc.

O ambientalismo moderno não se contrapõe à temática social. Ao contrário. O ambientalismo moderno vê a redução da pobreza e a melhoria da qualidade de vida como componentes essenciais de uma visão inteligente de proteção ambiental. Como disse Nelson Mandela: “a pobreza é a maior inimiga da conservação da natureza”.

Se não há mais lugar para o “velho ambientalismo”, também não há lugar para o “velho desenvolvimentismo”, marcado pela poluição de igarapés, destruição de nascentes, erosão dos solos, desertificação, etc. A convergência que devemos buscar tem alguns grandes desafios: como melhorar a qualidade de vida e, ao mesmo tempo, proteger a natureza? Como crescer a economia, gerando empregos sem destruir a base de sustentação da vida?

O embate político e partidário, às vezes, alimenta a ideia de antagonismo entre proteção ambiental e desenvolvimento econômico. É um equívoco. Nos últimos anos, a produção agropecuária, na Amazônia, cresceu rapidamente enquanto o desmatamento caiu de forma drástica. A explicação é simples: foram feitos investimentos em tecnologias modernas que aumentaram a produtividade. Aliás, essa é parte da solução para a sustentabilidade: precisamos melhorar a qualidade de projetos com tecnologias mais modernas.

Felizmente o ambientalismo moderno está cada dia mais forte na Amazônia e no Amazonas. O Amazonas pode e deve se orgulhar de ter boa parte de sua natureza bem conservada. Nosso desafio é valorizar economicamente isso. As hidroelétricas brasileiras, por exemplo, se beneficiam das florestas da Amazônia (fonte de chuva), mas não pagam por isso. Precisamos fazer com que a valorização dos serviços ambientais nos ajude a financiar melhorias na saúde, educação e geração de renda. Não é tarefa fácil, mas temos que perseverar. O futuro de todos está em jogo.

Artigo publicado, no Jornal Diário do Amazonas, em 04 de abril de 2013.

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