Arco e flecha indígena: ouro olímpico e autoestima

Um dos principais desafios do Brasil, para a Olimpíada Rio 2016, é ganhar um número de medalhas a altura da posição que o país ocupa no cenário internacional. Somos a sétima economia e a quinta maior população do mundo. Em Londres, ficamos em vigésimo segundo lugar no ranking de medalhas. Não se trata apenas de ficar “bem na foto”: investir em esporte tem impactos positivos na formação das pessoas e no processo de desenvolvimento das sociedades humanas.

Dentre as muitas modalidades olímpicas uma merece especial atenção: arco e flecha. Nenhuma outra modalidade se relaciona de forma tão clara e óbvia com a história do Brasil e da Amazônia.  As populações indígenas habitavam todo o território nacional na época da chegada dos europeus. Foram dizimadas por guerras, escravidão e doenças. Temos uma dívida histórica a ser resgatada.

O Brasil possui, hoje, mais de 300 etnias e uma população de cerca de 900 mil indígenas. Existem ainda mais de 50 grupos isolados, ainda não contatados, no interior da Amazônia. De maneira geral, a situação das populações indígenas do Brasil é muito ruim, infelizmente. Os elevados índices de suicídio de diversas etnias atestam de forma eloquente uma trágica realidade. A autoestima das populações indígenas é baixa, fruto da pobreza, preconceito e exclusão social. Os índices de alcoolismo são elevadíssimos. O acesso à saúde e educação está entre os piores do país. Predomina a desesperança.

A boa notícia é que existe um movimento de fortalecimento da cultura indígena, incluindo promissoras iniciativas de educação bilíngue e de resgate de tradições culturais. Existem também projetos bem sucedidos de geração de renda baseados no uso sustentável dos recursos naturais. Muitas populações indígenas possuem grandes reservas oficialmente reconhecidas e demarcadas. Para muitas etnias já é possível ver uma luz no fim do túnel.

Crianças indígenas aprendem a manusear o arco e flecha ainda na infância. Os adolescentes já caçam com maestria, alguns alcançando pássaros em pleno voo, como araras. Não teriam eles mais chances de conquistar o ouro olímpico do que jovens urbanos da Coréia ou da Rússia?

Há muito tempo, venho pensando em um proposta simples e ousada: um projeto para conquistar o ouro, a prata e o bronze olímpicos com jovens indígenas! Já temos o principal: o elemento humano. Falta apenas agregar a isso o necessário planejamento e apoio técnico, financeiro e institucional. Trata-se de um projeto que deve unir empresas privadas seriamente comprometidas com o esporte olímpico, governos e organizações da sociedade civil, especialmente aquelas que representam as populações indígenas. Essa união de esforços deve agregar os profissionais do mais alto nível na área do esporte e as organizações desportivas. Temos uma oportunidade única na Rio 2016!

Em março de 2013, demos um passo importante. Lançamos a Escola de Arqueria Floresta Flecha e o Projeto de Arqueria Indígena e Ribeirinha na Rio 2016. Trata-se de uma parceria envolvendo a Federação Amazonense de Tiro com Arco (FATARCO), em parceria com a Confederação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (COIPAM), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a Secretaria de Estado da Juventude, Desporto e Lazer do Amazonas (SEJEL) e a Secretaria de Estado para os Povos Indígenas (SEIND). É o primeiro passo de uma longa jornada.

A seleção dos primeiros jovens a fazerem parte da iniciativa ocorreu durante três meses, março a junho, na Área de Proteção Ambiental (APA) Rio Negro. Oito comunidades indígenas participaram do processo e 12 jovens, de 14 a 19 anos, de diferentes etnias foram selecionados para se deslocarem até Manaus, onde participaram do I Curso Intensivo de Tiro com Arco e Seletiva indígena, que ocorreu entre os dias 19 e 22 de junho.  Nesta etapa, 10 deles foram selecionados, os quais retornam, nesta semana, para a segunda seletiva. Em setembro e outubro acontecerá a terceira e a quarta eliminatória, respectivamente. Os três selecionados estarão no Campeonato Nacional, que acontecerá em Belo Horizonte (MG), entre os dias 10 a 17 de novembro, para sentirem o ambiente da competição e torná-los aptos a Olimpíada de 2016.

O projeto já foi protocolado na Lei nº 11.438/06, ou simplesmente Lei de Incentivo ao Esporte, que estabelece benefícios fiscais para pessoas físicas ou jurídicas ao estimularem o desenvolvimento do esporte nacional, por meio da doação para projetos desportivos e paradesportivos.

O sucesso dele não é apenas um caminho a mais para a necessária conquista de medalhas olímpicas. Será uma inestimável contribuição para resgatar uma dívida histórica que temos com as populações indígenas. Terá um enorme impacto positivo para a autoestima e o futuro das populações indígenas de todo o Brasil.

Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas, em 22 de agosto de 2013

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