Professores caboclos

É muito positivo que a valorização do saber caboclo esteja recebendo atenção no debate público do Amazonas. Não importa que parte dessa atenção seja motivada por interesses políticos eleitoreiros. É uma ótima oportunidade para aprofundar o debate.

O desafio de valorizar o saber caboclo e indígena tem alguns marcos na história do Amazonas e do Brasil. Um dos pioneiros deste tema foi o professor Warwick Kerr, ex-diretor do Inpa. O professor Kerr foi um dos mais notáveis geneticistas brasileiros e defendeu como poucos a importância das variedades de plantas domesticadas pelos índios e caboclos da Amazônia.  Criou uma linha de pesquisa dedicada a isso, que depois foi seguida por diversos pesquisadores da instituição e, mais tarde, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Tive a oportunidade de fazer um estágio com o professor Kerr, quando ainda cursava a graduação em engenharia florestal.

Na sociedade brasileira o conhecimento caboclo sempre foi tratado de forma preconceituosa, como folclore ou crendice. Raramente se dava valor e respeito a esse valioso saber. No mundo acadêmico, valorizá-lo era uma exceção. Foi neste contexto que foi criada, em 1996, a Sociedade Brasileira de Etnoecologia e Etnobiologia (SBEE), com o objetivo de valorizar o conhecimento ecológico e biológico de diferentes etnias e culturas. Inicialmente a SBEE foi presidida por Darrell Posey, um dos maiores pesquisadores em etnobiologia do Brasil. O professor Posey publicou artigos sobre o sistema de agricultura e manejo florestal dos índios Kayapó. Esses estudos mudaram profundamente a teoria sobre a dinâmica da floresta amazônica. A segunda pessoa a presidir da SBEE, foi a médica e etnofarmacóloga, Elaine Elizabetsky, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Eu tive a honra de sucedê-la como o terceiro presidente da SBEE. Orientei diversos alunos de mestrado e doutorado na desafiadora missão de sistematizar o conhecimento dos índios e caboclos brasileiros.

A valorização do saber caboclo é parte do coração do planejamento estratégico da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) desde seu início, em 2008. Implementamos uma metodologia de planejamento participativo, que não apenas valoriza o saber caboclo. Vamos além: empoderamos as comunidades ribeirinhas na elaboração de projetos de geração de renda e melhoria social. Em 2013, realizamos 80 oficinas de planejamento participativo, que resultaram na aprovação de 645 projetos, que beneficiam diretamente 562 comunidades ribeirinhas.  Essa participação tem como premissa a valorização do saber caboclo.Em novembro de 2013, realizamos um evento histórico na Faculdade de Ciências Agrárias da Ufam. Esse seminário teve uma mesa composta pelos presidentes das seguintes associações: Associação de Moradores Agroextrativistas da RDS Uacari, Associação das Comunidades Sustentáveis da RDS do Rio Negro e Central das Associações Agroextrativistas de Democracia, da RDS do Rio Amapá. Neste evento, os professores caboclos expuseram suas experiências e avaliações do Programa Bolsa Floresta, nos seus componentes de geração de renda, investimentos sociais, fortalecimento de associações e apoio às mães de família. Na ocasião, o presidente da Associação dos Moradores e Usuários da Reserva de Mamirauá – Antonio Martins (AMURMAM), Alcione Meireles disse: “nunca me imaginei na posição de palestrante em um evento desses. Estou aqui na condição de professor”. Isso evidencia a confiança e o respeito mútuos entre a FAS e as comunidades com quem a instituição trabalha.

Outro evento importante de 2013, foi o início do primeiro curso técnico da história do Amazonas voltado exclusivamente para jovens ribeirinhos. Trata-se de um curso sobre “Produção Sustentável em Unidades de Conservação”, no Médio Juruá, com 50 alunos matriculados. Neste curso, realizado em ótimas instalações, no meio da mata, os professores caboclos estão tendo a oportunidade de aprender a ciência e tecnologia desenvolvida pelas universidades. Somando o saber tradicional ao conhecimento científico estamos fazendo o que o professor Posey descreveu no seu clássico artigo “uma ponte ideológica para o futuro”.

Valorizar o saber dos professores caboclos é uma tarefa necessária e urgente. Devemos perguntar aos nossos políticos e autoridades o que eles têm feito de prático. Não há mais tempo a perder com discursos baseados em críticas infundadas.

Artigo publicado no jornal Diário do Amazonas em 27 de março de 2014.

Soluções para o desenvolvimento sustentável

Um dos principais desafios para a promoção do desenvolvimento sustentável é encontrar soluções práticas e viáveis. Neste contexto, o conhecimento das populações ribeirinhas da Amazônia é muito rico e precisa ser valorizado.

O caboclo amazônico e os índios têm muito a ensinar outras regiões sobre como conservar a floresta. Afinal de contas, as áreas ocupadas por estas populações tem um elevado índice de conservação florestal. As instituições da Amazônia também possuem um grande acúmulo de experiências com enorme valor para a promoção do desenvolvimento sustentável na região.

Uma recém iniciativa, denominada ‘Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia’ procura identificar e promover soluções desenvolvidas pelas instituições e moradores da região. A ideia é quebrar uma velha prática: importar soluções de fora da Amazônia. A proposta é fazer o oposto: mapear e disseminar soluções desenvolvidas pelas populações amazônicas e suas instituições de pesquisa, organizações não governamentais, empresas e instituições governamentais.

Existem soluções para a promoção do desenvolvimento sustentável, mas elas não são suficientemente conhecidas e divulgadas. Este é um problema global, não apenas da Amazônia. Temos agora a oportunidade de utilizar as mais modernas tecnologias de comunicação para conectar os desenvolvedores de soluções com aqueles que demandam este conhecimento prático.

Existem soluções para o manejo sustentável do pirarucu, a criação de tambaqui em cativeiro, a melhoria da educação, o atendimento à primeira infância, a geração de energia para comunidades isoladas, a agricultura com sistemas agroflorestais, etc. Fazer com que estas soluções sejam melhores conhecidas é um dos grandes desafios para promover um estilo de desenvolvimento capaz de melhorar a qualidade de vida e ao mesmo tempo promover a conservação da floresta.

As soluções desenvolvidas no Amazonas precisam ser compartilhadas com os estados vizinhos e com os demais países da Amazônia continental. Por outro lado, o Amazonas tem muito a aprender com as experiências dos demais estados e países da Amazônia.

Trocar experiências entre diferentes estados e países da Amazônia é algo que precisa ser estimulado. Esta é a missão da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. Fazem parte desta rede instituições de pesquisa, empresas, organizações não governamentais e instituições governamentais dos oito países que compõem a Amazônia continental.

O objetivo da Rede é mapear as soluções e tecnologias mais exitosas e facilitar o acesso a informações técnicas sobre estas iniciativas. Esta é uma iniciativa do bem, que pode valorizar o conhecimento das populações e instituições amazônicas. O conhecimento aqui gerado pode também ser útil também para outras regiões do mundo que possuem florestas tropicais e desafios semelhantes aos nossos.

Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas, em 20 de março de 2014.