A Copa e o turismo de base comunitária no Amazonas

Um dos principais legados da Copa é o turismo. Transformar esse potencial em realidade é um grande desafio. O Brasil vem investindo na melhoria dos aeroportos, apesar dos atrasos e problemas em outros, é certo que estamos dando um salto qualitativo.

O Amazonas tem um enorme potencial para o turismo temático, voltado para a natureza e a cultura da Amazônia. Entretanto ainda temos muito a melhorar no que diz respeito à oferta de produtos turísticos de boa qualidade para diferentes segmentos de turistas. Limitar-me-ei neste artigo à análise do Turismo de Base Comunitária (TBC) devido seu grande potencialno Amazonas.

O TBC é a modalidade de turismo que a oferta de produtos e serviços é feita pela própria comunidade de ribeirinhos, pescadores, indígenas etc. O que diferencia esta modalidade é a proximidade do turista em relação aos atrativos e experiências socioculturais e ambientais locais. Ao vivenciar um saber de Turismo de Base Comunitária o hóspede tem a oportunidade de conviver com uma cultura distinta daquela encontrada no mundo urbano. É diferente dos hotéis de selva ou resorts, que ficam mais distantes da realidade local, ainda que tenham visitas a comunidades, shows folclóricos etc.

O movimento de apoio a essa modalidade de turismo foi institucionalizado no Amazonas por meio do Fórum de Turismo de Base Comunitária. O núcleo ativo desse Fórum congrega 20 instituições, sendo 10 organizações não-governamentais, entre elas quatro são organizações comunitárias; sete órgãos de governo e três instituições de pesquisa. O objetivo do Fórum é apoiar o desenvolvimento do TBC no Amazonas. Foi histórica a sua última reunião quando realizada no evento de inauguração da pousada Vista Rio Negro, na comunidade Santa Helena do Inglês, RDS do Rio Negro.

Essa pousada é resultado de um sonho antigo da comunidade local que até pouco tempo vivia da extração ilegal de madeira e pesca. Como resultado do investimento do Programa Bolsa Floresta Renda, um dos quatro componentes do Programa Bolsa Floresta, a comunidade passou a contar com um plano de manejo florestal, que permite a produção de madeira legalizada, vendida a um preço maior e, hoje, com uma pousada com oito suítes e um restaurante.

A pousada Vista Rio Negro foi construída pela própria comunidade, que tem talentosos carpinteiros navais. Os funcionários da pousada também são da comunidade e estão sendo capacitados por ações do Fórum, da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e diversos parceiros. Dentre as parcerias cabe destaque ao Sebrae, que está apoiando a capacitação de empreendedores ribeirinhos, incluindo os relacionados com o turismo. Cabe evidência também ao apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), no âmbito da Campanha Passaporte Verde (www.passaporteverde.org.br), que divulgará aos turistas atraídos pela Copa os roteiros turísticos existentes nas margens esquerda e direita do Rio Negro.

Hoje, existem cinco pousadas, seis restaurantes e uma experiência de interação com botos e pirarucus, além de outros atrativos relacionados com o TBC no baixo Rio Negro. A Copa representa uma oportunidade para divulgar essas opções aos turistas que virão a Manaus. Representa uma ocasião para divulgar local, nacional e internacionalmente as possibilidades já ofertadas pelo Turismo de Base Comunitária. Trata-se de um passo importante para tornar o potencial de turismo no Amazonas em uma fonte de renda para as comunidades ribeirinhas.

Foto: Alex Pazuello/Agecom

Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas, em 29 de maio de 2014

Adaptação aos eventos climáticos extremos

Os eventos climáticos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes. Estatísticas internacionais compiladas pelo Centro para Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (CRED) são preocupantes. No período entre 1975 e 2008, ocorreram 8.866 desastres, que resultaram na morte de 2.283.767 pessoas. Deste total, os 23 maiores desastres mataram 1.786.084 pessoas. Isso significa que 0.26% dos eventos foram responsáveis por 78.2% das mortes. No mesmo período, as perdas econômicas documentadas totalizaram 1,5 trilhões de dólares.

O enfrentamento dos eventos climáticos extremos é objeto de um número crescente de pesquisas e eventos científicos. Este avanço da ciência e tecnologia deve ser considerado no desenvolvimento de estratégias para lidar com eventos climáticos extremos.

Um conceito que nos oferece um ponto de partida para a análise deste tema é a resiliência, que pode ser definida como a capacidade dos indivíduos, comunidades e sistemas para sobreviver, adaptar e crescer diante de estresses e choques e, eventualmente, se transformar quando as condições exigem isso.

Existem diferentes tipos de resiliência, que podem ser divididas em três categorias. A primeira categoria envolve respostas de adaptação capazes de assegurar a simples sobrevivência e a redução de perdas graves diante dos eventos extremos. Depois estão as respostas mais ativas, envolvendo a adaptação das estruturas, estilos de vida e sistemas de produção. Estas mudanças buscam reduzir as perdas econômicas e o sofrimento humano. O terceiro tipo de resiliência envolve mudanças transformadoras, que vão além dos pequenos ajustes nos sistemas atuais de produção e estilos de vida. Nesta categoria estão mudanças radicais das estruturas, estilos de vida e sistemas de produção.

O aumento da resiliência pode envolver soluções de diferentes naturezas, que podem ser divididas em três categorias. As soluções de engenharia civil incluem diques de contenção de enchentes, muros de contenção de deslizamentos, mudanças urbanas etc. As soluções baseadas em ecossistemas incluem a conservação de florestas e reflorestamento de áreas críticas etc. Dentre os objetivos destas ações está a minimização de deslizamentos e o aumento da absorção de água pelos solos. As soluções baseadas em processos sociais incluem a cooperação, a solidariedade, seguros e financiamento. O objetivo destas ações é mobilizar esforços e recursos para a adaptação aos eventos extremos.

O aumento da frequência de eventos climáticos extremos é uma das principais consequências das mudanças climáticas globais. Com o aquecimento global, o ar quente consegue armazenar mais umidade e isso está relacionado com eventos extremos, especialmente as enchentes.

A boa notícia é que o aumento das pesquisas e estudos técnicos resultaram em um número crescente de soluções para o enfrentamento dos eventos climáticos extremos. É necessário transformar estes avanços em políticas públicas eficientes. Disso dependerá a capacidade de enfrentar eventos climáticos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes e intensos. Só assim conseguiremos reduzir as perdas humanas e econômicas.

 Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas, em 22 de maio de 2014

Os serviços ambientais da Amazônia para o Brasil

A conservação da Amazônia tem muitas motivações, algumas de natureza subjetiva e outras de caráter objetivo. No imaginário coletivo, a Amazônia é o lugar dos mistérios, com suas florestas infindas e seus muitos povos indígenas – algumas dezenas dos quais ainda não contatados. Sua complexidade e mistérios despertam uma atitude de proteção e cuidado em todo o Brasil e no mundo.

Há, também, um outro conjunto de justificativas de caráter racional e objetivo para a conservação. Existe uma geodiversidade enorme, com grande potencial para a indústria mineral. Temos na biodiversidade amazônica um potencial significativo de desenvolvimento de remédios para doenças, cosméticos e de outros produtos para mais diversos fins. A riqueza dos produtos florestais madeireiros e não madeireiros tradicionalmente possuem valor econômico.

De uma forma simplificada, podemos dizer que a floresta funciona como uma usina de processamento de água. Suga, como se fosse uma enorme bomba, a umidade do Oceano Atlântico. A chuva que cai na região leste é amortecida por uma complexa esponja florestal composta pelas folhas, galhos, troncos e o solo, rico em matéria orgânica, minhocas e milhões de outros pequenos animais. A água que cai rapidamente se transforma em vapor d’água, que sai enriquecido por compostos químicos, denominados de compostos orgânicos voláteis.

Estes compostos funcionam como aceleradores da formação de novas chuvas, atuando nas nuvens de baixa altitude. As chuvas de segunda geração repetem o mesmo processo daquelas que iniciaram o processamento da água, desde o litoral do Oceano Atlântico até as encostas da Cordilheira dos Andes.

No meio desta caminhada, a floresta produz alguns jatos que levam o excesso de umidade para fora da Amazônia. Este fenômeno, chamado de jatos de baixa altitude, levam bilhões de metros cúbicos de água para o sudoeste (Chaco argentino e paraguaio) e sudeste da América do Sul (sul, sudeste e centro-oeste brasileiro). Ao longo do ano, a umidade exportada pela Amazônia para outras regiões é da ordem de 1,7 trilhões de metros cúbicos de vapor d’água, segundo estimativa do professor Eneas Salati.

Podemos dizer que a chuva que cai nas demais regiões do Brasil é significativamente influenciada pelo processamento de água feito pela floresta amazônica. Se constatarmos que a chuva é essencial para alimentar as plantas da nossa agricultura e pecuária e encher os rios que abastecem nossas cidades e as usinas de geração de energia elétrica, podemos dizer que a Amazônia é essencial para o Brasil. Por isso, devemos valorizar economicamente os serviços ambientais prestados pelas nossas florestas para o restante do país.

 Artigo publicado no jornal Diário do Amazonas, no dia 15 de maio de 2014