Meio ambiente e qualidade de vida

Durante muito tempo, a ênfase da agenda ambiental foi reduzir a degradação e proteger a natureza ameaçada pelo crescimento econômico. Agora o desafio vai além disso: é entender o papel da sustentabilidade ambiental para o bem estar humano. Estamos diante de uma mudança de paradigmas para a agenda ambiental.

A sustentabilidade ambiental não deve ser vista como uma agenda isolada. Ao contrário: deve ser entendida como parte de uma agenda mais ampla de aumento da felicidade, erradicação da pobreza e crescimento econômico. Não são agendas antagônicas, mas, sim agendas complementares, que devem ser implementadas simultaneamente.

Durante muito tempo pensou-se que a erradicação da pobreza era uma prioridade que deveria impor à agenda ambiental uma posição de segundo plano. Ainda é comum ouvir líderes dizerem que se preocupam mais com as pessoas do que com os animais, plantas e a conservação da natureza. Essa visão está ultrapassada. Estamos todos interconectados com a natureza e nossas vidas dependem disso.

A ciência, por meio do recém-publicado relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas(IPCC), mostra que o clima do mundo está mudando em função das atividades humanas. Pior: isto está acontecendo mais rapidamente do que o esperado. Devemos nos preparar para a adaptação a catástrofes ambientais cada vez mais severas e frequentes. Uma das melhores estratégias para isso é investir na conservação e restauração de ecossistemas naturais. Conservar e restaurar as florestas nas montanhas são os investimentos com melhor relação custo-benefício para proteger os moradores vulneráveis a enchentes e secas.

A população pobre, que vem melhorando de renda e qualidade de vida, é a mais vulnerável a eventos climáticos extremos. As habitações da população de baixa renda estão mais frequentemente localizadas em locais de riscoe têm construções mais precárias. A economia familiar tem maior vulnerabilidade a catástrofes. Tudo isso coloca as conquistas sociais recentes em risco.

Investir na conservação da natureza é, portanto, algo diretamente relacionado com o bem estar humano. Não apenas pensando nas populações mais pobres. Tudo aquilo que gostamos de fazer, beber ou comer depende da manutenção dos serviços ambientais: da qualidade do vinho até o lazer nas montanhas ou praias. O conceito de serviços ambientais precisa ser cada vez melhor entendido e internalizado na formulação de políticas públicas, estratégias empresariais, movimentos sociais e nas decisões individuais dos consumidores.

Uma das soluções para aumentar a resiliência de nossas sociedades é assegurar que os ecossistemas naturais estejam saudáveis e capazes de assegurar os serviços ambientais para o bem estar humano. Em outras palavras, dependemos da vitalidade dos oceanos, florestas e outros ecossistemas para manter a biodiversidade, que é a fonte dos serviços ambientais que nos permitem viver como seres humanos neste planeta.

Um dos principais avanços das negociações internacionais relacionadas com a Rio+20 foi o acordo global sobre uma agenda pós-2015. Este será o período subsequente aos compromissos relacionados com os Objetivos do Milênio, que terminam em 2015. A agenda pós-2015 deverá integrar melhor a agenda ambiental com a busca de melhoria da qualidade de vida para os pobres e a manutenção das conquistas de bem estar para todos. Se não houver a devida atenção para isso, todos os ganhos sociais estarão comprometidos e a economia cada dia mais vulnerável aos efeitos devastadores das mudanças climáticas. É uma agenda para todos: pobres e ricos.

A boa notícia é que existem conhecimento e recursos suficientes para promover a necessária mudança na trajetória de nossas economias, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento.Entretanto, ainda falta clareza sobre a urgência dessa mudança, tanto na população em geral quanto na visão da maior parte de nossas lideranças; tanto no setor público quanto no mundo empresarial e na sociedade civil. É hora de uma nova tomada de consciência e ação.

Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas, em 26 de junho de 2014 

Um comentário

  1. Concordo plenamente com voce Virgilio. Mais um artigo seu que fortalece meu ponto de vista de que o conceito de sustentabilidade deve envolver uma simbiose perfeita entre a natureza e o homem,dado que ambos vêm de uma so fonte. Nesse aspecto, embora o conceito se constitua numa agenda para pobres e ricos, como voce fala, entendo e defendo que , para seu fortalecimento, devamos eleger prioritariamente, um link para os mais pobres, pelas razoes tao bem expostas em seu artigo e principalmente se levarmos em conta que sao eles( os pobres) que
    em ultima analise sao os principais responsaveis pela manutenção dessa sustentabilidade, sem ter por outro lado, a devida contrapartida nos processos de desenvolvimento. Parabens, mais uma vez.

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