Lixo zero: um legado da Copa?

Um dos fatos que mereceu destaque na imprensa amazonense no evento-teste para a Copa com o jogo entre Vasco e Resende, na última quinta-feira (dia 3), foi o acúmulo de grande quantidade de lixo ao redor da Arena da Amazônia. Uma enorme abundância de lixo se acumulou na Avenida Constantino Nery e outras vias públicas da vizinhança.

Quando se discute o legado da Copa, pensamos no futuro uso da belíssima Arena, nas melhorias do aeroporto Eduardo Gomes, no desafio de aprimorar o trânsito e a mobilidade urbana, etc. Não seria o caso de ampliarmos esse legado para nossa relação com o lixo? Que tal uma união das instituições governamentais e da sociedade civil entorno de uma campanha de “lixo zero”?

É comum as pessoas jogarem lixo nas ruas, praças, igarapés e rios. Esse lixo se acumula e acaba entupindo os bueiros e impedindo que a água encontre o seu destino. Ele se acumula- e acaba entupindo a rede de drenagem e causando alagamentos. Além disso, vira-se foco de doenças como a dengue. Por fim, o lixo torna a cidade feia para todos: moradores e turistas.

Uma das principais características das sociedades que passam para o estágio de “desenvolvidas” é a limpeza. Isso se aplica de forma especial ao tratamento que é dado ao lixo. Nos países desenvolvidos é raríssimo ver um copo de plástico, uma garrafa pet ou uma embalagem de salgadinho no chão.  Manaus tem a sexta maior economia do Brasil. De todo o lixo produzido pela cidade, apenas 0,17% é reciclado, segundo a Prefeitura Municipal de Manaus.

Não precisamos ir além das nossas fronteiras para encontrar cidades onde os cidadãos têm uma atitude apropriada com relação ao lixo. Curitiba é o exemplo mais conhecido, mas existem muitas outras. Em Vitória e no Rio de Janeiro, os cidadãos que jogam lixo e entulho nas ruas são punidos com multas, complementadas por ações educativas. [1]

Cuidar do lixo é uma tarefa que começa pela atitude de cada pessoa. Quanto custa segurar a garrafa pet vazia na mão por alguns minutos até encontrarmos uma lixeira? É esse tipo de mudança de comportamento que uma campanha de “lixo zero” deveria buscar. Essa mudança de atitude do cidadão deveria ser amparada pelo aumento no número de depósitos de coleta de lixo em toda a cidade.

Um dos fatores que pesou na escolha de Manaus como sede da Copa foi o seu status de “capital do verde”, por estar situada no coração da parte mais conservada da floresta amazônica.  Creio que devemos dar mais um passo. A imprensa e os turistas que passarão por Manaus durante a Copa poderão se tornar grandes embaixadores do turismo do Amazonas se tiverem uma boa experiência aqui.  A cena do lixo acumulado nas vias públicas ao redor da Arena prestará um desserviço para isso.

Poderíamos ter um legado de longo prazo para todo o Amazonas. Não se trata apenas de uma agenda para Manaus e a Copa. Uma campanha de “lixo zero” poderia e deveria chegar aos municípios e comunidades do interior. Isso contribuiria de forma especial para melhora comunidades do interior. Isso contribuiria de forma especial para melhorar a qualidade de vida, reduzir a incidência de doenças relacionadas ao lixo e valorizar nossos eventos esportivos e culturais. Isso é parte do que chamamos de desenvolvimento sustentável.

[1]http://cidadesdobrasil.com.br/cgi-cn/news.cgi?cl=099105100097100101098114&arecod=19&newcod=766

Artigo publicado no Jornal Diário do Amazonas, em 10 de abril de 2014

 

 

Professores caboclos

É muito positivo que a valorização do saber caboclo esteja recebendo atenção no debate público do Amazonas. Não importa que parte dessa atenção seja motivada por interesses políticos eleitoreiros. É uma ótima oportunidade para aprofundar o debate.

O desafio de valorizar o saber caboclo e indígena tem alguns marcos na história do Amazonas e do Brasil. Um dos pioneiros deste tema foi o professor Warwick Kerr, ex-diretor do Inpa. O professor Kerr foi um dos mais notáveis geneticistas brasileiros e defendeu como poucos a importância das variedades de plantas domesticadas pelos índios e caboclos da Amazônia.  Criou uma linha de pesquisa dedicada a isso, que depois foi seguida por diversos pesquisadores da instituição e, mais tarde, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Tive a oportunidade de fazer um estágio com o professor Kerr, quando ainda cursava a graduação em engenharia florestal.

Na sociedade brasileira o conhecimento caboclo sempre foi tratado de forma preconceituosa, como folclore ou crendice. Raramente se dava valor e respeito a esse valioso saber. No mundo acadêmico, valorizá-lo era uma exceção. Foi neste contexto que foi criada, em 1996, a Sociedade Brasileira de Etnoecologia e Etnobiologia (SBEE), com o objetivo de valorizar o conhecimento ecológico e biológico de diferentes etnias e culturas. Inicialmente a SBEE foi presidida por Darrell Posey, um dos maiores pesquisadores em etnobiologia do Brasil. O professor Posey publicou artigos sobre o sistema de agricultura e manejo florestal dos índios Kayapó. Esses estudos mudaram profundamente a teoria sobre a dinâmica da floresta amazônica. A segunda pessoa a presidir da SBEE, foi a médica e etnofarmacóloga, Elaine Elizabetsky, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Eu tive a honra de sucedê-la como o terceiro presidente da SBEE. Orientei diversos alunos de mestrado e doutorado na desafiadora missão de sistematizar o conhecimento dos índios e caboclos brasileiros.

A valorização do saber caboclo é parte do coração do planejamento estratégico da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) desde seu início, em 2008. Implementamos uma metodologia de planejamento participativo, que não apenas valoriza o saber caboclo. Vamos além: empoderamos as comunidades ribeirinhas na elaboração de projetos de geração de renda e melhoria social. Em 2013, realizamos 80 oficinas de planejamento participativo, que resultaram na aprovação de 645 projetos, que beneficiam diretamente 562 comunidades ribeirinhas.  Essa participação tem como premissa a valorização do saber caboclo.Em novembro de 2013, realizamos um evento histórico na Faculdade de Ciências Agrárias da Ufam. Esse seminário teve uma mesa composta pelos presidentes das seguintes associações: Associação de Moradores Agroextrativistas da RDS Uacari, Associação das Comunidades Sustentáveis da RDS do Rio Negro e Central das Associações Agroextrativistas de Democracia, da RDS do Rio Amapá. Neste evento, os professores caboclos expuseram suas experiências e avaliações do Programa Bolsa Floresta, nos seus componentes de geração de renda, investimentos sociais, fortalecimento de associações e apoio às mães de família. Na ocasião, o presidente da Associação dos Moradores e Usuários da Reserva de Mamirauá – Antonio Martins (AMURMAM), Alcione Meireles disse: “nunca me imaginei na posição de palestrante em um evento desses. Estou aqui na condição de professor”. Isso evidencia a confiança e o respeito mútuos entre a FAS e as comunidades com quem a instituição trabalha.

Outro evento importante de 2013, foi o início do primeiro curso técnico da história do Amazonas voltado exclusivamente para jovens ribeirinhos. Trata-se de um curso sobre “Produção Sustentável em Unidades de Conservação”, no Médio Juruá, com 50 alunos matriculados. Neste curso, realizado em ótimas instalações, no meio da mata, os professores caboclos estão tendo a oportunidade de aprender a ciência e tecnologia desenvolvida pelas universidades. Somando o saber tradicional ao conhecimento científico estamos fazendo o que o professor Posey descreveu no seu clássico artigo “uma ponte ideológica para o futuro”.

Valorizar o saber dos professores caboclos é uma tarefa necessária e urgente. Devemos perguntar aos nossos políticos e autoridades o que eles têm feito de prático. Não há mais tempo a perder com discursos baseados em críticas infundadas.

Artigo publicado no jornal Diário do Amazonas em 27 de março de 2014.

O ambientalismo e os temas sociais

Durante muito tempo, o ambientalismo tinha como foco apenas a conservação da natureza. Isso mudou, felizmente. O ambientalismo moderno incorporou os temas sociais nas suas estratégias de ação.

A história do ambientalismo é antiga, podendo ser identificado no pensamento dos sábios gregos ou nas realizações de civilizações indígenas como os Maias, na América Central. Vamos focar aqui na história mais recente, a partir da segunda metade do século XX.

Diante da destruição avassaladora dos solos, rios, oceanos e florestas, cresceu o entendimento de que isso poderia ser uma barreira para o desenvolvimento da humanidade. Esse juízo, fortemente embasado pela ciência, alimentou um movimento ambientalista, que resultou em manifestações populares e movimentos políticos. A pauta principal era conservar os ecossistemas, partindo do princípio de que a destruição ambiental compromete o acesso à água potável, à conservação dos solos para a agricultura e à produção de peixe em rios,  aos lagos e mares, etc.

Durante muito tempo, o pensamento ambientalista foi marcado por um posicionamento radical e distante da realidade. A ideia era de que a proteção da natureza deveria vir antes e acima dos temas sociais. A crítica ao “mito da natureza intocada”, tão bem formulada por Antonio Carlos Diegues, apontou para os equívocos de uma visão tipicamente urbana e problemas majoritariamente rurais. Foi neste contexto que floresceu um novo ambientalismo, que incorpora a temática social na sua estratégia de ação. Assim que o conceito de “preservação” –  proteger a natureza intocada pelas pessoas – foi sendo substituído pelo conceito de “conservação” –  proteger a natureza com o seu manejo pelas sociedades humanas.

Do ponto de vista prático, os preservacionistas defendiam áreas intocadas – como parques nacionais – como a única forma de proteger a natureza. Os conservacionistas, por sua vez, defendem que o manejo dos recursos naturais representa um caminho mais eficiente para conciliar a proteção da natureza com a melhoria da qualidade de vida. Esse pensamento evoluiu para o conceito de desenvolvimento sustentável, em que os objetivos relacionados à conservação ambiental são colocados em pé de igualdade com o desenvolvimento econômico e os temas sociais como, por exemplo, saúde, educação, etc.

O ambientalismo moderno não se contrapõe à temática social. Ao contrário. O ambientalismo moderno vê a redução da pobreza e a melhoria da qualidade de vida como componentes essenciais de uma visão inteligente de proteção ambiental. Como disse Nelson Mandela: “a pobreza é a maior inimiga da conservação da natureza”.

Se não há mais lugar para o “velho ambientalismo”, também não há lugar para o “velho desenvolvimentismo”, marcado pela poluição de igarapés, destruição de nascentes, erosão dos solos, desertificação, etc. A convergência que devemos buscar tem alguns grandes desafios: como melhorar a qualidade de vida e, ao mesmo tempo, proteger a natureza? Como crescer a economia, gerando empregos sem destruir a base de sustentação da vida?

O embate político e partidário, às vezes, alimenta a ideia de antagonismo entre proteção ambiental e desenvolvimento econômico. É um equívoco. Nos últimos anos, a produção agropecuária, na Amazônia, cresceu rapidamente enquanto o desmatamento caiu de forma drástica. A explicação é simples: foram feitos investimentos em tecnologias modernas que aumentaram a produtividade. Aliás, essa é parte da solução para a sustentabilidade: precisamos melhorar a qualidade de projetos com tecnologias mais modernas.

Felizmente o ambientalismo moderno está cada dia mais forte na Amazônia e no Amazonas. O Amazonas pode e deve se orgulhar de ter boa parte de sua natureza bem conservada. Nosso desafio é valorizar economicamente isso. As hidroelétricas brasileiras, por exemplo, se beneficiam das florestas da Amazônia (fonte de chuva), mas não pagam por isso. Precisamos fazer com que a valorização dos serviços ambientais nos ajude a financiar melhorias na saúde, educação e geração de renda. Não é tarefa fácil, mas temos que perseverar. O futuro de todos está em jogo.

Artigo publicado, no Jornal Diário do Amazonas, em 04 de abril de 2013.